quinta-feira, 6 de novembro de 2008

PRIMAVERA
Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim.

Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

5 comentários:

EternaApaixonada disse...

*****

Hoje não farei nada mais que navegar pelos lindos mares e deleitar-me com as homenagens prestadas à querida poetisa!
Parabéns pelo lindo post! Uma linda escolha que tanto exprime a obra de Cecília Meireles!
Grande abraço.

*****

HelianaBastos disse...

a Cecília Meireles tem um dor de nos fazer sentir a poesia de tal maneira que não sabemos descrever o que ela nos reprsenta.
adoro a primavera,pelo calendário,eu nasci nesse período em que as flores enfeitam a nossa vida!

também tô na blogagem!apareça pelo meu blog se assim desejar!
bom final d semana!=D

Aparecida Ferreira disse...

Estou visitando os blogs participantes de HOJE É DIA DE CECÍLIA - ADENTRANDO NO MUNDO MARAVILHOSO DESSA GRANDE POETA!
Também participei.

Abraços,
Aparecida

Leonor Cordeiro disse...

Querida Patrycia,

Adorei receber a sua companhia nessa blogagem coletiva.
Obrigada por ter participado.
Gosto muito dessa crônica da Cecília. Comentei em outro blog e repito aqui:


“Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela,
uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente,
que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.”

É PRECISO APRENDER A OLHAR …

Quer coisa mais rica do que essa? A arte de ser feliz necessita de uma certa maneira de olhar o mundo …
Cecília aqui me faz lembrar Alberto Caeiro. Caeiro também destaca a importância do olhar …

“Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio
não é bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.”

Patrycia, vamos continuar nos vendo!
Mil beijinhos!
Com carinho,

Leonor Cordeiro

Sara Albuquerque disse...

=D

Amoreco... tem um Meme para vc em meu Blog! ^^ No texto "Coisinhas MInhas".

Beijos.